Coluna
Publicado em
10/5/2023 10:47

Fragilidades da política monetária impulsionam inequalidade e Bitcoin

Veja os motivos que sustentam tese de Bitcoin como “reserva de valor”
Componente decorativo no bloco representando as cores do FLJ.
Pixabay

Por Paulo Boghosian

Atualmente, é difícil encontrar alguém que não tenha sentido o aumento do custo de vida, ano após ano, independentemente da classe social. Apesar de existirem períodos em que a queda do poder de compra é mais acentuada, como após as reaberturas do COVID, o custo de vida continua aumentando.

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Há algumas décadas, nos EUA, um aluno de classe média concluía a faculdade com uma reserva de emergência ou até mesmo uma poupança para adquirir seus primeiros bens. Hoje, os EUA têm mais de US$ 1,7 trilhões em dívida estudantil, e o aluno médio se forma com US$ 37 mil em dívidas. Além disso, o custo da habitação em relação à renda média nos EUA está próximo das máximas históricas.

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Este efeito pode ser observado em qualquer grande economia, especialmente em países em desenvolvimento, que sofrem com a desvalorização da moeda local, como o Brasil. Há uma crescente queda no poder de compra, principalmente em bens essenciais e ativos reais. No gráfico abaixo, que detalha a inflação por setor da economia, percebe-se a inflação crescente principalmente em bens essenciais e ativos reais.

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É verdade que houve melhoria no padrão de vida, avanços tecnológicos e redução na miséria. Contudo, o indivíduo "comum" enfrenta dificuldades para pagar suas contas, acumular bens e poupar. Enquanto isso, um pequeno grupo de bilionários vê suas fortunas aumentarem cada vez mais. Paralelamente à pressão nas classes A, B e C, há também um aumento na desigualdade. A fortuna dos dez mais ricos do mundo dobrou no pós-COVID. Abaixo pode-se visualizar a renda dos 1% mais ricos em relação a população geral nos EUA. Os fatores são diversos e incluem tecnologia, globalização e mudanças no mercado de trabalho. Este artigo não vai detalhar cada um desses fatores, mas sim discutir o desalinhamento de incentivos na economia como um todo, especialmente a expansão monetária sem limites dos bancos centrais das principais economias globais e o efeito Cantillon.

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A expansão monetária tem como objetivo estimular a economia, aumentando liquidez, crédito e motivando crescimento. No entanto, os estímulos se tornaram permanentes e os bancos centrais não conseguem retirá-los. As políticas de “quantitative easing” começaram em 2008, mas os ativos dos bancos centrais americanos e europeus só aumentaram desde então, crescendo exponencialmente na crise da COVID.

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As políticas de “quantitative easing” começaram de forma em 2008 e deveriam ser temporários, mas desde então os ativos dos bancos centrais americanos e europeu só aumentaram. Abaixo pode-se visualizar o total de ativos sob custódia do Fed. Jerome Powell, presidente do banco central dos EUA, comprou em seis meses mais títulos do que seus antecessores Ben Bernanke e Janet Yellen juntos em seus mandatos inteiros. Em 20 anos, o Federal Reserve passou de pouco mais de US$ 1 trilhão em ativos para cerca de US$ 9 trilhões. Pior ainda, quando a inflação chegou, as políticas de aperto monetário não conseguiram retirar nem 20% desses estímulos sem gerar problemas na economia americana, incluindo a quebra de diversos bancos pequenos e médios. Já se fala em recessão nos EUA, o que exigirá um novo ciclo de expansão monetária.

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Isso nos leva ao efeito Cantillon, um conceito econômico que se refere à mudança na distribuição de renda e riqueza devido à expansão monetária. Richard Cantillion foi um economista franco-irlandês do século 18 que escreveu uma série de trabalhos, dos quais o mais conhecido é o “Essai Sur La Nature Du Commerce En Général “. Seu trabalho é conhecido por muitos, principalmente os economistas austríacos como o berço da política econômica. Mais adiante o renomado economista austríaco Ludwig Von Mises descreveu mais detalhadamente a tese de Cantillion e deu uma roupagem mais moderna ao tema sob a ótica de utilidade marginal. 

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Basicamente o efeito Cantillion explicita que os primeiros a receber o dinheiro recém-criado veem sua renda aumentar, enquanto os últimos a recebê-lo experimentam uma diminuição do poder de compra devido à inflação. Ou seja, não há neutralidade na maneira que o dinheiro e o crédito são emitidos na nossa economia. 

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A expansão monetária afeta desigualmente a economia, beneficiando principalmente instituições financeiras e indivíduos com maior acesso ao crédito. Isso ocorre porque os bancos e outras instituições financeiras são os primeiros a receber o dinheiro recém-criado, e também são os principais produtores de dinheiro de crédito, que pode ser emprestado sem lastro em dinheiro base.

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Sob um sistema de banco central moderno, a criação de dinheiro é injetada na economia através do canal de crédito, afetando primeiro os mercados financeiros. Nesse cenário, as instituições financeiras podem comprar mais bens, serviços e ativos a preços ainda relativamente baixos, beneficiando-se desproporcionalmente da criação de dinheiro. Quando o dinheiro chega na ponta, no cidadão comum, os ativos reais e financeiros já estão com preços inflados. Esse processo ainda leva a criação de bolhas nos preços dos ativos.

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A conclusão é respaldada por várias ilustrações empíricas. Por exemplo, o setor financeiro contribuiu significativamente para o crescimento da riqueza dos bilionários. O mercado financeiro é a maior fonte de bilionários da lista da Forbes, como mostra a imagem abaixo.  

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Os bancos centrais agora enfrentam um dilema: como reverter a expansão monetária sem causar instabilidade econômica e, ao mesmo tempo, lidar com as consequências indesejadas em termos de desigualdade crescente. Enquanto isso, o efeito Cantillon e a expansão monetária continuam a afetar a economia global e a qualidade de vida das pessoas, principalmente aquelas com menos acesso aos recursos financeiros.

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Para piorar, em regimes de aperto monetário, como temos vivido nos últimos dois anos, o Fed resgata bancos com problemas em seus balanços como vimos na grande crise financeira. Isso cria incentivos morais errados, já que as perdas dos bancos são socializadas. 

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Muitas pessoas têm dificuldade em entender o fenômeno do Bitcoin e da criptoeconomia. Além da inovação e dos ganhos de eficiência trazidos por essa nova tecnologia, acredito que a explicação passe também pela desconfiança do investidor no mercado financeiro tradicional. Quer dizer, o sistema financeiro atual tem incentivos desalinhados e que gera efeitos indesejados para a sociedade como um todo, o que está fazendo com que diversos investidores busquem um refúgio deste sistema. Bitcoin é um desses ativos, principalmente por suas propriedades únicas.

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É indiscutível a elegância da política monetária do Bitcoin. No protocolo do Bitcoin não há reserva fracionária, o número de tokens é limitado a 21 milhões, e a emissão cai a cada 4 anos, o que o torna um ativo desinflacionário. Além disso, sua emissão é neutra. Qualquer um pode participar do seu sistema de mineração, e somente dedicando trabalho computacional para proteger a rede consegue-se obter moedas que são emitidas através de “block rewards”, uma remuneração pela emissão de novos blocos na rede. 

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Enquanto dólares que são usados para precificar o Bitcoin são impressos a esmo, a oferta de bitcoins é escassa, e o resultado lógico disso, dado que haja demanda e percepção de valor no ativo é uma apreciação. Assim, o ativo é considerado por muitos uma reserva de valor e um refúgio contra as políticas injustas dos bancos centrais, embora, devido a seu histórico ainda pequeno, seja ainda um ativo de alta volatilidade.  

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*O artigo representa a opinião do colunista e não do FLJ

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Foto panorâmica da tão famosa Faria Lima